Projeto Aruanã, que nasceu da parceria com os pescadores de Itaipu, realiza mais uma temporada de captura com a participação dos trabalhadores do mar
Na semana do dia 5 de outubro, o Projeto Aruanã iniciou a segunda e última temporada de capturas intencionais de tartarugas marinhas de 2026, na Praia de Itaipu, em Niterói. O monitoramento tem como seu objetivo acompanhar a saúde das tartarugas que utilizam a região como área de alimentação.
Mas, paralelamente ao trabalho dos biólogos, existe uma parceria que aproxima o conhecimento científico dos saberes construídos pela comunidade pesqueira ao longo de gerações. O Projeto Aruanã, que é patrocinado pela Petrobras, por meio do programa Petrobras socioambiental, nasceu em Itaipu, em 2010, e, desde sua origem, mantém uma relação de parceria e profissional com os pescadores artesanais da região.
“A equipe contratada pelo Projeto Aruanã inclui pescadores, e isso é muito importante para nós. Além de valorizar o conhecimento que eles têm sobre o mar, o trabalho no projeto representa uma fonte de renda complementar. Sempre que possível, também contribuímos para melhorar as condições de trabalho dos pescadores da região, por meio da recuperação, adequação ou cessão de estruturas de apoio à atividade pesqueira”, declarou Suzana Guimarães, coordenadora-geral do Projeto Aruanã.
Hoje, essa relação também faz parte da história da Reserva Extrativista Marinha de Itaipu (RESEX-Itaipu), criada em 2013 com o objetivo de proteger os meios de vida dos pescadores artesanais tradicionais e promover o uso sustentável dos recursos naturais.
Uma comunidade que conhece o mar
A Praia de Itaipu abriga uma comunidade pesqueira tradicional cuja relação com o mar atravessa gerações. Mais do que uma atividade econômica, a pesca artesanal está ligada à história, à cultura e à identidade do território. Os pescadores acumulam conhecimentos construídos no cotidiano, a partir da observação do mar, das espécies e das mudanças que acontecem no ambiente.
A permanência dessa comunidade também representa uma forma de resistência à transformação do território. Em uma região marcada pela valorização imobiliária e por profundas mudanças na ocupação urbana, a presença dos pescadores mantém vivos modos de vida, espaços, práticas e memórias que fazem parte da história de Itaipu. O território não é apenas um lugar onde se pesca: é um espaço de pertencimento, onde famílias construíram suas histórias e onde conhecimentos e tradições continuam sendo transmitidos.
Mas essa continuidade não está garantida. A redução do número de jovens que seguem a atividade pesqueira coloca em questão a transmissão desse modo de vida para as próximas gerações. Sem a renovação da comunidade, existe o risco de que, aos poucos, não apenas a pesca artesanal, mas também parte da memória e da identidade de Itaipu perca espaço diante das transformações do território. Valorizar e fortalecer quem permanece é, portanto, também uma forma de preservar a história viva do lugar.
Um exemplo dessa história é o pescador Mauro Freitas, de família tradicional de Itaipu, que é atualmente membro da equipe do Projeto Aruanã, como pescador. Ele começou no mar ainda criança, como ajudante de pesca, e hoje é mestre do arrasto de praia, uma das modalidades mais tradicionais da região. “Comecei a pescar com 7 anos de idade e até hoje eu pesco. Tenho 67 anos, já são 60 anos de pesca”, conta.
Quando conhecimentos diferentes se encontram
É nesse contexto que a parceria entre os pescadores e o Projeto Aruanã ganha importância. Durante as temporadas de captura em Itaipu, o pescador Mauro participa diretamente da atividade de campo, ao lado dos biólogos e voluntários. A experiência dele e dos demais pescadores contribui para o trabalho científico, enquanto a pesquisa também possibilita novas informações sobre as tartarugas e o ambiente em que elas vivem.
Essa troca acontece há mais de 15 anos. Em depoimento para uma websérie do Projeto Aruanã, o pescador Mauro Freitas relata aprendizados relacionados à presença das tartarugas na região, incluindo cuidados durante a atividade pesqueira e a importância de evitar determinadas áreas utilizadas pelos animais. Para as pesquisadoras do projeto, a união desses diferentes conhecimentos é uma parte fundamental no trabalho de conservação.
Os números da atuação do Projeto em Itaipu ajudam a dimensionar esse trabalho em conjunto. Ao todo, o Aruanã já capturou 395 indivíduos de tartaruga-verde em Itaipu, sendo 243 marcados ao longo dos anos. O maior tempo de monitoramento de uma mesma tartaruga na região chega a 10 anos.
Na primeira semana desta temporada de captura intencional foram 24 tartarugas capturadas. Entre elas, dois indivíduos foram marcados pela primeira vez: são animais que estão chegando à área de alimentação para passar ali sua fase juvenil. Outras tartarugas acompanhadas pelo projeto já se aproximam da fase adulta, quando deixam as áreas costeiras e migram para ilhas oceânicas.
A temporada continua nesta semana do dia 12 de outubro, com novos dias de captura intencional na Praia de Itaipu e a chance do público acompanhar tudo de perto. Como as atividades dependem das condições do mar e do clima, que precisam ser monitoradas, a confirmação de cada dia de campo é divulgada no Instagram do Projeto Aruanã. Quem quiser saber se as capturas vão acontecer deve acompanhar através dos stories no @projetoaruana.
Sobre o Projeto Aruanã
O Projeto Aruanã dedica-se à conservação das tartarugas marinhas no estado do Rio de Janeiro, com foco na Baía de Guanabara. Por meio da realização de pesquisas científicas e ações de educação ambiental e sensibilização social, o projeto promove a participação da sociedade civil na proteção dos ambientes marinhos costeiros. Desde sua origem, busca atuar de forma colaborativa, em parceria com pescadores e diversas instituições para a promoção de ações decisivas no fomento de políticas públicas. O Projeto Aruanã conta com o patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental, e também com a parceria do Aquário Marinho do Rio de Janeiro.
SERVIÇO:
Capturas intencionais de tartarugas marinhas do Projeto Aruanã
Onde: Praia de Itaipu, Niterói (RJ)
Quando: próxima semana, em dias a serem confirmados
Horário: a partir das 9h às 11h00, aproximadamente
Confirmação: a realização de cada dia de captura depende das condições do mar e do clima, que precisam ser monitoradas. Por isso, a confirmação é divulgada nos stories do Instagram do Projeto Aruanã.